A mulher no rock

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Kathleen Hannah em show do Bikini Kill nos anos 90

Uma mulher roqueira é rebelde, revoltada, masculina, é só uma fase, vai passar. Um homem roqueiro é rebelde, revoltado, com atitude, determinado, macho. Mulheres e homens que gostam de rock não aprendem a ouvir cantoras ou bandas com mulheres na sua formação, mas aprendem que é legal ter uma personalidade agressiva e masculina, ao máximo se possível. Vangloriam o estereótipo roqueiro do homem cabeludo, insensível, que coça o saco e fala palavrão, reforçando a ideia – equivocada – de que rock não é lugar para “menininha”. Se uma mulher gosta de rock, existem duas opções para ela ser bem aceita: ser totalmente masculinizada, se encaixando no estereótipo do fã de rock, ou ser totalmente objetificada, servindo de enfeite e sendo utilizada para suprir o prazer dos outros.

Mais de 20 aos depois do Riot Grrrl, movimento feminista dos anos 90 liderado pela vocalista do Bikini Kill, Kathleen Hannah (foto acima), e após a consolidação de dezenas de exemplos femininos no rock, o estilo continua sendo um ambiente difícil para a maioria das mulheres. Janis Joplin, Patti Smith, Joan Jett e Rita Lee fizeram história e deixaram a marca das mulheres no rock, mas mesmo assim muitas ainda sofrem para conseguir o reconhecimento merecido.

O Riot Grrrl não foi o primeiro e nem será o último movimento da música a divulgar o machismo no rock e lutar contra ele, até porque a falta de visibilidade e a misoginia ainda fazem parte da cena. É fato que não existe espaço para as mulheres no rock e isso não pode ser justificado pela falta de mulher batendo na porta. São as pessoas que não querem abrir.

“No Brasil, salvo algumas exceções, a mulher é mais aceita na MPB, como se fosse o ‘sexo frágil’, que só poderia combinar com uma música mais suave”, comenta Carol Arantes, vocalista da banda Klatu. A letrista e compositora é casada com Leco Peres, o baixista do grupo, e os dois têm um combinado: não se apresentar como um casal. “Mesmo assim, até hoje muitos se referem a mim como a mulher do baixista”.

Carol Arantes está longe de ser um bibelô em cima do palco e participa das composições da banda. Mas ela é mulher. Isso quer dizer que seu trabalho e talento serão julgados em dobro. “Já ouvi muita gente falar de outro roqueiro que ele nem é tão talentoso, mas que tudo bem, no rock n’roll vale tudo, o que importa é a atitude. Já as mulheres são muito mais cobradas, não podem cometer nenhum deslize!”. Para uma mulher que deseja fazer parte da cena roqueira, nem o talento, nem a atitude bastam. Afinal de contas, o estereótipo da pessoa que faz parte de uma banda de rock tem gênero: masculino.

Essa realidade se aplica tanto à mulher que está começando a carreira quanto à mulher que já é conhecida no meio. Flávia Couri foi para a Dinamarca dar andamento a um projeto que lidera ao lado do marido Martin Wild, o The Courettes, depois de passar sete anos se dedicando ao Autoramas, grupo de rock nacional independente que já realizou shows em diversos países. Normalmente, não se discutiria a qualidade de seu currículo. Mas ela é mulher. “Sempre que digo que tenho banda as pessoas falam ‘ah, você é a vocalista, né?’, como se desconhecessem o fato de que existem tantas instrumentistas maravilhosas na história do rock”.

Carol e Flávia são mulheres que se colocam à frente de suas bandas sem cultivar uma imagem masculinizada de si mesmas, algo que no ambiente do rock deve ser visto como ousadia. É ousado não deixar de ser quem você é para ter seu talento reconhecido. É ousado mostrar para as pessoas que é mais interessante prestar atenção nas suas composições do que no tamanho de seus vestidos – e não deixar de vesti-los mesmo assim.

Esse padrão masculino esperado das mulheres no rock vai além da aparência e se estende ao comportamento dentro e fora do palco. “Já perdi as contas de quantas vezes já acabou show e vieram dizer pra eu rasgar mais a voz ou ter mais atitude, pra não ficar tão ‘menininha’”, conta Paula Neiva. Um vocal melódico é a última coisa que se espera da vocalista da Cyrano, uma banda de hardcore. Mas se ela cantasse emocore ou pop rock estaria tudo de acordo, até porque esses estilos não são normalmente ligados ao rock do estereótipo masculino. Pelo contrário, essas vertentes são julgadas como música voltada para o público feminino e homossexual. Porque o rock, além de ser um estilo que inibe a participação das mulheres, é ainda menos receptivo em relação às lésbicas.

Não é à toa que a maioria das bandas formadas por mulheres lésbicas é engajada na luta feminista. A cena abre ainda menos portas para essas mulheres, que se encontram numa situação na qual é preciso se unir para que suas bandas consigam divulgar seus respectivos trabalhos.O rock tem dois poderes: unir e segregar. E a segregação é o primeiro poder que as mulheres conhecem quando para o mundo do rock. No entanto, muitas vezes é justamente essa porta fechada que fortalece o surgimento da união entre elas.”Esse rock tradicional-branco-hétero-revestido de alternativo é um porre. Assim como rolou alguns afastamentos necessários, rolou uma aproximação e encontros muito massa com uma cena incrível de mulheres, homens, enfim, de quem anda junto, pensa amplo e em consonância com LGBTs”, conta Amanda Rocha, vocalista e guitarrista do duo La Burca.

Mas ainda existe um terceiro poder do rock, o de libertar e empoderar. Essas duas sensações andam juntas e vão desde a primeira música do Bikini Kill que você escuta, passa pela convivência com a sua melhor amiga do colégio que curte as mesmas bandas que você e vai até formar uma banda só de mulheres. Como muitas outras, Amanda também passou por esse processo: “Desde o momento em que aprendi a tocar baixo e liguei numa caixa de som me senti empoderada, mas sem a consciência dessa palavra na época. Eu pensava ‘nossa, eu posso tocar, compor e é tão fácil e legal’. Porque pra mim sempre foi natural tocar, eu componho desde os seis anos. Mas não entendia muito bem e ficava chateada por ter tão poucas minas na cena, nos idos dos anos 90”.

A presença de uma mulher roqueira em cima de um palco incomoda muita gente. A presença de uma mulher lésbica roqueira incomoda muito mais. A de uma mulher negra incomoda mais ainda. Foi o que Natalia Munroe, vocalista da banda Kali, percebeu logo cedo, ainda criança. “Quando eu tinha 13 anos, depois de sair da escola e ir para o ponto de ônibus, senti alguém puxar minha mochila com muita força. Era um garoto da minha idade também, porém maior que eu. Ele gritava com uma convicção absurda para aquela época enquanto apontava pra minha mochila dizendo ‘você é preta, não pode gostar de rock, rock foi feito para os brancos, você tem que gostar de pagode!’. Naquele momento eu só apertei a minha mochila contra o peito e queria chorar, mas eu só consegui olhar pra ele e dizer ‘eu vou gostar daquilo que eu quiser’”.

Se existe um estereótipo que não se encaixa no padrão do fã de rock é o da mulher negra. Espera-se que ela saiba sambar, que goste de soul, funk, gospel ou de pagode, como o menino da história da Natalia. Mas o que muita gente não sabe é que o rock, assim como diversos outros estilos de música, também tem raiz negra. Oriundo de uma mistura entre o country, dos brancos, e o blues, dos negros, surgiu o rock n’ roll da década de 50. Mas antes de Chuck Berry e Elvis Presley, uma mulher negra empunhava sua guitarra e soltava sua voz nas primeiras gravações de rock que temos conhecimento.

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Sister Rosetta Tharpe no começo da carreira

Sister Rosetta Tharpe, que atualmente é conhecida como a avó do rock, já gravava e fazia shows nos anos 30, quando misturava uma guitarra rock n’ roll com letras gospel. Seu nome se popularizou no ano passado, quando completaria 100 anos de idade, no dia 20 de março. Sister Rosetta se apresentou até os anos 70, mas seu talento acabou ofuscado pela avalanche de artistas homens que foram surgindo ao longo dos anos, ocupando seu espaço na mídia e nos palcos.

Afirmar que um dos primeiros expoentes do rock é uma mulher negra é algo que dificilmente ganharia atenção tempos atrás, quando o feminismo ainda era visto, pela maioria das pessoas, como algo para mulheres lésbicas e extremistas e a palavra empoderamento mal era usada. A evolução é visível. Hoje em dia temos eventos como o Ladyfest, que reúne diversas expressões artísticas realizadas por mulheres ao redor do mundo, negócios como o Girls Rock Camp, um acampamento só para garotas que ensina crianças e adolescentes a tocar instrumentos e se expressar por meio da música, e campanhas como Support Woman in Hardcore, que luta por um rock com mais espaço para as mulheres, mais respeito e menos machismo e preconceito.

Ações como essas ainda são necessárias, matérias como esta ainda são necessárias. O rock ainda é um ambiente majoritariamente masculino, que inibe o envolvimento das mulheres que querem fazer música e das mulheres que querem apenas curtir. Assim como muita mulher já desistiu de tocar numa banda, muita mulher também já deixou de comparecer nos shows.

“Acho que a coisa que mais afasta o público feminino é a falta de visibilidade das bandas compostas por mulheres”. Gabs Lima é maquiadora e frequenta shows de rock nos quais dificilmente encontra outras mulheres e, quando encontra, estão apenas acompanhando os namorados. É essa falta de representação que perpetua a ideia do rock enquanto lugar feito de homens para homens, no qual às mulheres pertence o papel de coadjuvante.

Em como todo contexto machista, o público e as bandas também alimentam a competição entre mulheres, que deixam de se unir por causa de questões que giram em torno dos protagonistas da história, os homens. “Com todo esse ambiente falocêntrico, as mulheres que são socializadas para sempre agradar o outro acabam se desentendendo por causa de um cara bosta, esquecem do amor próprio e prejudicam a si mesmas”.

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Grayce Ferreira (centro) em show de hardcore em São Paulo

“Falam que mulher que pula do palco é galinha e chamam de Maria Mosh”, conta Grayce Ferreira, técnica de informática e assídua frequentadora de shows de hardcore, que não ligou para esse tipo de pensamento na hora de pular do palco, mas acabou enfrentando um problema ainda mais grave. “A primeira vez que fiz stage dive pegaram no meu peito. Desde então nunca mais tentei pular”.

Se no dia a dia da nossa sociedade acontecem assédios como esse, por que no rock seria diferente? Antes fosse só no rock, antes as mulheres fossem objetificadas só nas letras, antes elas enfrentassem essas dificuldades somente nos shows. Outros estilos de música também são machistas e misóginos, em maior ou menor grau e dentro de cada contexto. O rock, assim como outras manifestações culturais, reflete a sociedade em que vivemos.

No momento, nos encontramos em uma fase de crescimento do feminismo, com hashtags como #primeiroassédio alcançando mais de 100 mil tweets e o número de buscas no Google por “feminismo” ter aumentado 86,7% no Brasil de janeiro de 2014 a outubro de 2015. Isso também fica visível no rock e nas artes em geral. Flávia Couri concorda: “Acho que tem rolado uma evolução geral e espero que a tendência seja que essas situações se tornem cada vez mais raras. Espero que em breve sejam tão raras que a gente não precise mais fazer esse tipo de entrevista e possa focar no que realmente importa: o rock!”.

Ainda está longe o dia em que as mulheres poderão fazer rock sem ser subjugadas, mas é a dedicação diária de não desistir de subir no palco, de ir aos shows, de dar visibilidade às bandas com integrantes mulheres e de não deixar nenhum homem dizer de que tipo de música você pode ou deve gostar de ouvir que vai mudar isso. Esse trabalho foi e está sendo feito por muitas pessoas e, se depender delas, a história vai parar de falar do rock sem falar de mulher.

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2 thoughts on “A mulher no rock

  1. […] “Quando eu tinha 13 anos, depois de sair da escola e ir para o ponto de ônibus, senti alguém puxar minha mochila com muita força. Era um garoto da minha idade também, porém maior que eu. Ele gritava com uma convicção absurda para aquela época enquanto apontava pra minha mochila dizendo ‘você é preta, não pode gostar de rock, rock foi feito para os brancos, você tem que gostar de pagode!’. Naquele momento eu só apertei a minha mochila contra o peito e queria chorar, mas eu só consegui olhar pra ele e dizer ‘eu vou gostar daquilo que eu quiser’.” – Natalia Munroe no zomzera. […]

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